Os demônios imploravam a Jesus: "Se nos expulsas, manda-nos entrar naquela manada de porcos"
1. Introdução
Há algo profundamente revelador na imagem de demônios implorando. Seres que representam a rebelião absoluta contra Deus, que possuíam dois homens e os reduziam a uma existência de terror e degradação, agora se curvam diante de Jesus com um pedido. Não com exigências, não com ameaças — com súplica.
Mateus 8:31 registra esse momento com precisão desconcertante. Os demônios sabem que a expulsão é inevitável. Não tentam negociar a permanência, não tentam fugir. Pedem apenas para onde vão. Esse único detalhe já seria suficiente para revelar a hierarquia absoluta entre Jesus e as forças do mal — mas o versículo vai além. O pedido dos demônios para entrarem nos porcos abre uma janela para entender a natureza do mal, a lógica da libertação e o custo que a vitória de Jesus pode ter para os que estão ao redor.
2. Contexto Histórico e Cultural
No mundo do primeiro século, tanto na tradição judaica quanto no pensamento greco-romano, havia uma crença generalizada de que espíritos malignos precisavam de alguma forma de habitação — um corpo, um lugar, um objeto. A ideia de um demônio "errante", sem morada, era associada a um estado de agitação e instabilidade. Esse pressuposto cultural aparece explicitamente em Mateus 12:43-45, quando Jesus descreve um espírito impuro que, após sair de um homem, "anda por lugares áridos à procura de repouso e não o encontra."
O pedido dos demônios para entrarem nos porcos, portanto, não era arbitrário — refletia a compreensão da época sobre a necessidade dos espíritos malignos de habitar algo. A escolha dos porcos, animais considerados impuros segundo Levítico 11:7-8, tinha também uma coerência simbólica: o impuro buscando o impuro.
A região dos gadarenos, como já estabelecido nos versículos anteriores, era território gentílico da Decápolis, onde a criação de porcos era uma atividade econômica legítima e comum. A destruição da manada — narrada no versículo seguinte — teria um impacto econômico real e significativo para os proprietários e para a comunidade local, o que explica parcialmente a reação das pessoas ao saberem do ocorrido.
O verbo grego usado para "implorar" — parekáloun — é o mesmo usado em outros textos para descrever súplicas urgentes e persistentes. A intensidade do pedido dos demônios reflete não apenas medo, mas a consciência plena de que estão completamente sob a autoridade de Jesus.
3. Análise Teológica do Versículo
"Os demônios imploravam a Jesus"
Essa frase destaca a autoridade de Jesus sobre o reino espiritual. Os demônios — representantes das forças do mal — reconhecem o poder de Jesus e se submetem à sua autoridade. Esse encontro demonstra a realidade da guerra espiritual e o reconhecimento da natureza divina de Jesus até mesmo pelas forças das trevas. O ato de implorar indica o desespero deles e o reconhecimento da superioridade de Jesus, o que se alinha com Tiago 2:19, que afirma que até os demônios creem em Deus e tremem.
"Se nos expulsas"
O condicional "se" revela que os demônios estão plenamente cientes de que Jesus tem o poder de expulsá-los. Isso reflete o tema mais amplo da autoridade de Jesus sobre o mal, como visto em outros exorcismos nos evangelhos (por exemplo, Marcos 1:23-27). A frase também implica a inevitabilidade da expulsão — a presença e a missão de Jesus são confrontar e vencer o mal. Isso se alinha com 1 João 3:8, que afirma que o Filho de Deus veio para destruir as obras do diabo.
"Manda-nos entrar naquela manada de porcos"
O pedido para entrar nos porcos é significativo tanto cultural quanto teologicamente. Os porcos eram animais considerados impuros segundo a lei judaica (Levítico 11:7), e sua presença na região dos gadarenos — área predominantemente gentílica — reforça o contexto cultural da cena. O desejo dos demônios de entrar nos porcos pode refletir a necessidade que os espíritos têm de habitar um corpo físico, pois espíritos sem hospedeiro são descritos como inquietos (Mateus 12:43-45). Esse evento antecipa a derrota definitiva do mal: a subsequente destruição dos porcos simboliza a natureza destrutiva da influência demoníaca e o poder purificador do ministério de Jesus.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Jesus A figura central da passagem. Ao realizar milagres, demonstra a sua autoridade sobre o reino espiritual — autoridade que se estende tanto ao mundo físico quanto ao invisível.
2. Os Demônios Seres espirituais em oposição a Deus, que reconhecem a autoridade de Jesus e lhe fazem uma súplica. O fato de implorarem revela que, diante de Jesus, não lhes resta nenhuma alternativa de resistência.
3. A Manada de Porcos O grande rebanho de porcos por perto, no qual os demônios pedem para entrar. Animais impuros segundo a lei judaica, sua presença na cena tem peso cultural e simbólico significativo.
4. Gadara A região onde o evento ocorre, associada ao território gentílico. O ambiente cultural distante das práticas judaicas é parte integrante do significado teológico da cena.
5. Os Homens Possuídos As pessoas atormentadas pelos demônios, foco central da intervenção milagrosa de Jesus. Sua libertação é o objetivo do episódio — os demônios e os porcos são elementos secundários em relação a esses dois homens.
5. Pontos de Ensino
A autoridade de Jesus O domínio de Jesus sobre os demônios demonstra sua autoridade suprema sobre toda a criação — física e espiritual. Os demônios não resistem, não fogem, não tentam argumentar: imploram. Esse detalhe revela a hierarquia absoluta do poder de Cristo.
O reconhecimento do poder de Jesus Até os demônios reconhecem e se submetem à autoridade de Jesus, lembrando ao crente do poder que existe no seu nome. Se os adversários mais ferrenhos de Deus se curvam diante de Cristo, não há situação humana que esteja além do seu alcance.
A realidade da guerra espiritual Essa passagem ilustra de forma concreta a realidade da guerra espiritual e a necessidade de o crente depender do poder de Jesus nas suas próprias batalhas. O confronto não é teórico — é real, tem vítimas reais e exige intervenção real.
A compaixão e a libertação como missão A disposição de Jesus em libertar os homens possuídos revela a sua compaixão e o seu desejo de libertar quem está em cativeiro. Isso encoraja o crente a levar a Jesus as suas próprias situações de opressão — seja física, espiritual ou emocional.
O custo do discipulado A destruição dos porcos pode ser vista como um lembrete de que seguir Jesus e vivenciar o seu poder pode ter um custo concreto. A liberdade espiritual tem um valor que supera qualquer perda material — mas é importante reconhecer que o custo existe e que o evangelh não promete ausência de perdas.
6. Aspectos Filosóficos
O pedido dos demônios levanta uma questão filosófica que vai além do episódio imediato: o que revela sobre a natureza do mal o fato de ele precisar de permissão para agir?
Os demônios não agem por conta própria. Não simplesmente saem dos homens e entram nos porcos. Eles pedem. E esse pedido pressupõe que Jesus tem a palavra final — que mesmo a movimentação das forças do mal no mundo ocorre dentro de limites estabelecidos por Deus. Essa ideia ressoa com a estrutura teológica do livro de Jó, onde Satanás só pode agir dentro do espaço que Deus lhe concede. O mal não é autônomo — opera dentro de uma soberania que não controla.
Isso tem implicações profundas para a forma de entender o sofrimento e o mal no mundo. Se o mal fosse absolutamente livre, a sua existência seria uma refutação do poder de Deus. Mas se o mal opera dentro de limites — se até os demônios precisam pedir — então a sua existência é compatível com a soberania divina, ainda que o mistério do por que Deus permite determinadas formas de mal permaneça em aberto.
Há também uma dimensão interessante sobre a natureza da vontade e da escolha. Os demônios escolhem pedir para entrar nos porcos — mas essa escolha já está circunscrita pela autoridade de Jesus. Eles exercem uma forma de vontade, mas dentro de um espaço que não definiram. Essa tensão entre vontade limitada e soberania absoluta é uma das mais antigas questões da filosofia e da teologia — e Mateus 8:31 a apresenta de forma narrativa sem resolvê-la teoricamente, mas deixando claro onde está o poder definitivo.
Para o crente, a implicação prática é esta: o mal que se enfrenta na vida — seja opressão espiritual, circunstâncias adversas ou forças que parecem incontroláveis — não opera fora do alcance de Cristo. Isso não elimina o sofrimento, mas transforma a sua interpretação.
7. Aplicações Práticas
Reconhecer onde está a autoridade real Os demônios sabem que a autoridade pertence a Jesus — e agem de acordo com esse conhecimento. O crente que enfrenta situações de opressão ou conflito espiritual precisa partir do mesmo reconhecimento: a autoridade de Cristo é superior a qualquer força adversária. Orar, portanto, não é uma tentativa de convencer Deus — é alinhar-se com uma autoridade que já existe.
Não subestimar o poder do nome de Jesus Se os demônios pedem permissão a Jesus antes de qualquer movimento, o nome de Jesus não é uma fórmula religiosa vazia — é a expressão de uma autoridade real sobre o mundo espiritual. O crente pode invocar esse nome com confiança, não com superstição, mas com consciência do que ele representa.
Agir com compaixão diante da opressão alheia Jesus não ignorou os dois homens, não os considerou casos perdidos, não definiu limites para o que o seu poder poderia fazer. O crente é chamado à mesma postura diante de quem está em situação de opressão — espiritual, emocional, social. A compaixão não é apenas um sentimento; é uma orientação que leva à ação concreta.
Aceitar que a libertação pode ter um custo visível A destruição dos porcos terá consequências econômicas reais para a comunidade. Às vezes, a libertação de uma pessoa — de um vício, de um relacionamento destrutivo, de uma estrutura de dependência — gera perdas concretas ao redor. Reconhecer isso de antemão ajuda o crente a não se surpreender com a resistência que a mudança genuína pode gerar.
Levar a Jesus as situações que parecem incontroláveis Os dois homens estavam em uma condição que nenhuma força humana havia conseguido resolver — Marcos detalha que tentaram acorrentá-los e não conseguiram. Às vezes o crente enfrenta situações que excedem completamente os recursos humanos disponíveis. O modelo do episódio é direto: levar a Jesus o que está além do alcance humano.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. Como a autoridade de Jesus sobre os demônios em Mateus 8:31 encoraja o crente nas suas batalhas espirituais pessoais?
O fato de os demônios implorarem a Jesus — em vez de resistirem ou fugirem — estabelece uma hierarquia clara: diante de Cristo, as forças do mal não têm alternativa senão a submissão. Para o crente, isso significa que as batalhas espirituais não são disputas entre forças equivalentes. Jesus não está em uma guerra equilibrada com o mal — ele possui autoridade soberana sobre ele. Isso não elimina o conflito, mas muda radicalmente a perspectiva: o crente luta a partir de uma posição de autoridade delegada por Cristo, não de desamparo.
2. De que maneiras o reconhecimento do poder de Jesus pelos demônios pode desafiar o crente a aprofundar a própria compreensão e reverência pela sua autoridade?
Existe uma ironia desconcertante nessa cena: os demônios têm uma compreensão mais precisa da autoridade de Jesus do que muitos que se dizem seus seguidores. Eles sabem que não podem agir sem permissão, sabem que a expulsão é inevitável, sabem com quem estão lidando. O desafio para o crente é que o reconhecimento da autoridade de Jesus deixe de ser apenas doutrina memorizada e se torne confiança real, operante, que muda a forma de orar, de decidir e de enfrentar o adverso.
3. Como a compaixão que Jesus demonstra nessa passagem pode inspirar o crente a agir diante de quem está espiritualmente ou fisicamente oprimido?
Jesus não fez uma avaliação da dignidade ou do mérito dos dois homens antes de agir. Não pesou se o caso era recuperável. Não considerou o ambiente impuro como um empecilho. Simplesmente foi ao encontro deles e atuou. Para o crente, isso estabelece um padrão: a compaixão cristã não seleciona os seus destinatários pela aparência de recuperabilidade. Age onde há necessidade, confiando que o poder de Cristo é maior do que qualquer condição de partida.
4. Quais são algumas formas práticas de o crente se preparar para a guerra espiritual, a partir do exemplo de Jesus nessa passagem?
Jesus atuou com autoridade direta, sem rituais elaborados e sem hesitação. A preparação para a guerra espiritual não consiste em técnicas ou fórmulas, mas em familiaridade real com Cristo — cultivada pela oração regular, pelo conhecimento das Escrituras, pela vida em comunidade cristã e pela prática do discernimento. Efésios 6:10-18 descreve a "armadura de Deus" como o conjunto de elementos que sustentam o crente nesse confronto. A preparação é contínua, não pontual — é um estilo de vida, não uma técnica de emergência.
5. Reflita sobre um momento em que seguir a Jesus exigiu algum sacrifício pessoal. Como essa passagem ajuda a entender o valor da liberdade espiritual em relação à perda material?
A destruição dos porcos representa uma perda econômica real para a comunidade local. Jesus não compensou os proprietários, não minimizou a perda. Mas o que foi ganho — a libertação de dois seres humanos de uma condição de destruição total — supera incomparavelmente qualquer valor material. Essa lógica se aplica às escolhas do discipulado: há situações em que seguir a Jesus implica abrir mão de algo de valor concreto — um relacionamento, uma oportunidade, um conforto. A pergunta que esse texto coloca é direta: o que vale mais? A resposta não é sentimentalista — é teológica. O valor da libertação humana, na perspectiva de Jesus, supera qualquer cálculo econômico.
9. Conexão com Outros Textos
Marcos 5:1-20 e Lucas 8:26-39
Os relatos paralelos oferecem detalhes complementares importantes. Marcos especifica que a manada tinha cerca de dois mil porcos — dado que dimensiona o impacto econômico do milagre. Lucas descreve com mais detalhes a condição do homem possuído antes do encontro com Jesus, incluindo que ele vivia nu entre os sepulcros há muito tempo. Os três relatos juntos formam um quadro completo que nenhum deles apresenta isoladamente.
"Os demônios saíram do homem e entraram nos porcos, e a manada se precipitou pelo despenhadeiro abaixo, dentro do lago, e se afogou." (Lucas 8:33)
O detalhe do despenhadeiro e do afogamento, presente em Lucas, confirma a destruição imediata e total — sublinhando o caráter destrutivo da influência demoníaca quando liberada sem restrição.
Tiago 2:19
"Você crê que há um só Deus? Faz bem. Até os demônios creem nisso e tremem!"
Tiago articula em forma de princípio o que Mateus narra em ação. Os demônios não apenas reconhecem quem é Jesus — submetem-se a ele com súplica urgente. O conhecimento que eles têm é preciso, mas não produz fé: produz terror. O contraste com a fé genuína do crente é o coração do apelo de Tiago — e ecoa diretamente nessa cena.
Filipenses 2:10-11
"Para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai."
O pedido dos demônios em Mateus 8:31 é uma antecipação narrativa do que Filipenses 2 descreve em termos escatológicos. Os demônios já se curvam diante de Jesus — já reconhecem a sua autoridade, já se submetem ao seu julgamento. O que Filipenses projeta para o futuro definitivo, Mateus mostra acontecendo no presente histórico do ministério de Jesus.
10. Original Grego e Análise
Versículo em português: "Os demônios imploravam a Jesus: 'Se nos expulsas, manda-nos entrar naquela manada de porcos.'"
Texto em grego (Mateus 8:31): οἱ δὲ δαίμονες παρεκάλουν αὐτὸν λέγοντες· εἰ ἐκβάλλεις ἡμᾶς, ἀπόστειλον ἡμᾶς εἰς τὴν ἀγέλην τῶν χοίρων.
Transliteração: hoi de daimones parekaloun auton legontes; ei ekballeis hēmas, aposteilon hēmas eis tēn agelēn tōn choirōn.
Análise palavra por palavra:
δαίμονες (daimones) — "demônios". Plural de daimōn, que no grego clássico designava espíritos intermediários — nem deuses nem humanos. No contexto do Novo Testamento, o termo adquire conotação inequivocamente negativa: seres espirituais em oposição a Deus, agentes do mal. A escolha do termo por Mateus é precisa e sem ambiguidade.
παρεκάλουν (parekaloun) — "imploravam". Imperfeito do verbo parakaleō, que significa chamar alguém ao lado, suplicar, exortar com urgência. O imperfeito indica uma ação contínua: os demônios não pediram uma vez — imploravam repetidamente, com persistência. A raiz para + kaleō ("chamar ao lado") transmite a ideia de uma súplica próxima, insistente. O mesmo verbo é usado em outros contextos para pedidos urgentes e emocionalmente carregados no Novo Testamento.
εἰ ἐκβάλλεις (ei ekballeis) — "se nos expulsas". A partícula condicional ei seguida do presente do indicativo forma uma condicional de primeiro tipo em grego — aquela que pressupõe a condição como real ou muito provável. Ou seja, os demônios não estão questionando se Jesus pode expulsá-los: estão reconhecendo que ele o fará. O verbo ekballō — "lançar para fora", "expulsar" — é o mesmo usado em todo o Novo Testamento para descrever exorcismos. Contém a ideia de uma ação enérgica, definitiva, sem margem de retorno.
ἀπόστειλον (aposteilon) — "manda", "envia". Aoristo imperativo de apostellō — o verbo que dá origem à palavra "apóstolo" (apostolos = "enviado"). O aoristo imperativo indica uma ação pontual, uma ordem específica. Os demônios pedem que Jesus execute um ato definido de envio — não uma permissão vaga, mas uma instrução direta. A palavra revela que eles reconhecem Jesus não apenas como mais poderoso, mas como aquele que tem autoridade de comando sobre o que acontecerá com eles.
εἰς τὴν ἀγέλην τῶν χοίρων (eis tēn agelēn tōn choirōn) — "para a manada de porcos". A preposição eis indica movimento em direção a um destino específico. O artigo definido tēn — "aquela" manada — mostra que os demônios se referem ao rebanho específico que estava visível na cena, mencionado em Mateus 8:30. Eles não pedem para ir a qualquer lugar — pedem para ir àquela manada em particular. Choirōn é o genitivo plural de choiros — porcos —, animais impuros segundo a lei levítica, cuja presença confirma o contexto gentílico e acrescenta peso simbólico ao pedido.
A análise do grego revela a intensidade e a precisão do episódio. O imperfeito parekaloun mostra súplica persistente, não um pedido casual. A condicional ei ekballeis confirma que os demônios pressupõem a expulsão como certa. O imperativo aposteilon revela o reconhecimento de que Jesus tem autoridade de envio. E a referência específica a tēn agelēn — "aquela" manada — indica que os demônios já haviam identificado o seu próximo destino. Cada escolha vocabular de Mateus contribui para um retrato de seres que sabem exatamente o que está acontecendo e que não têm outro recurso senão apelar à autoridade de quem os derrota.
11. Conclusão
Mateus 8:31 é um versículo que concentra, em uma única frase, uma das afirmações mais contundentes sobre a autoridade de Jesus em todo o Evangelho. Não é uma declaração teológica abstrata — é um evento: demônios que aterrorizam, possuem e destroem seres humanos se curvam diante de Jesus com um pedido. Não resistem. Não fogem. Imploram.
Esse detalhe narrativo tem uma força argumentativa que nenhum discurso teológico reproduz com a mesma eficácia. A submissão involuntária dos demônios é, paradoxalmente, um dos testemunhos mais fortes da divindade de Jesus nos evangelhos — porque vem de quem não tem nenhuma razão para reconhecê-la, exceto a impossibilidade de negar o que está diante deles.
O pedido para entrar nos porcos revela ainda que o mal, por mais destrutivo que seja, opera dentro de limites que não definiu. A soberania de Deus sobre a história não é abalada pela existência do mal — ela o circunscreve. Os demônios só podem ir para onde Jesus permitir. Essa realidade não resolve o mistério do sofrimento, mas coloca o crente em um chão firme: o que parece fora de controle não está fora do alcance de Cristo.
Para quem enfrenta situações que excedem os recursos humanos disponíveis — opressão, desespero, cativeiro de qualquer tipo —, o modelo desse episódio é direto: levar a Jesus o que está além do alcance humano. A mesma autoridade que fez os demônios implorarem é a que sustenta o crente hoje.









