Mateus 9:24

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E disse: Retirai-vos, porque a menina não está morta, mas sim dormindo. E riram dele.
Mateus 9:24

Estudo


E disse: Retirai-vos, porque a menina não está morta, mas sim dormindo. E riram dele.

1. Introdução

Na casa enlutada de Jairo, em meio ao barulho dos tocadores de flauta e ao choro da multidão, Jesus faz uma declaração que parece desafiar a própria realidade. Ele manda todos saírem e afirma que a menina não morreu, apenas dorme. A reação é imediata: riem dele.

Este versículo coloca lado a lado duas visões de mundo. A da multidão, que vê na morte o ponto final absoluto. E a de Jesus, que enxerga a morte como um sono do qual ele tem poder para despertar. O riso de escárnio mostra como o coração humano resiste a crer que existe uma autoridade maior do que a morte.

2. Contexto Histórico e Cultural

O luto judaico era público e barulhento. Quando alguém morria, a casa se enchia rapidamente de parentes, vizinhos e profissionais do pranto. O silêncio diante de um morto seria considerado uma falta de respeito.

Mandar todos saírem
Pedir que a multidão se retirasse era uma atitude incomum e até ofensiva diante dos costumes da época. Jesus interrompe deliberadamente o ritual do luto para criar um ambiente diferente, livre da descrença e do tumulto.

A morte como sono
A imagem do sono para falar da morte não era estranha à mentalidade hebraica. Vários textos das Escrituras já usavam essa linguagem para indicar que a morte, diante de Deus, não é o fim definitivo, mas um estado de espera pela ressurreição.

3. Análise Teológica do Versículo

“Retirai-vos”, disse ele

Jesus ordena que os enlutados e os tocadores de flauta saiam, estabelecendo um ambiente propício à fé, e não à dúvida. A atitude lembra Eliseu, que se isolou antes de ressuscitar o filho da sunamita. Ao esvaziar o ambiente, Jesus deixa claro que somente o poder divino, e não a agitação humana, produz vida. A descrença é separada da cena do milagre, assim como a falta de fé limitou os milagres em Nazaré.

  • Jesus remove os enlutados e os tocadores de flauta, criando uma atmosfera de fé em vez de dúvida, do mesmo modo que Eliseu fechou a porta antes de orar sobre o filho da sunamita.
  • O Senhor com frequência separa a descrença das cenas de milagre. Marcos 5:39-40 apresenta o mesmo padrão: Jesus dispensa as pessoas depois de declarar que a criança apenas dorme.
  • Esvaziar o ambiente reforça que a agitação humana não pode produzir vida; somente Cristo pode. A incredulidade limitou as grandes obras em Nazaré.

“A menina não está morta, mas sim dormindo”

Embora a criança tenha de fato morrido, Jesus fala a partir de uma perspectiva eterna, na qual a morte se assemelha a um sono passageiro. As Escrituras usam repetidamente a linguagem do “sono” para a morte que aguarda a ressurreição, como em Daniel e em Tessalonicenses. Em João 11, Jesus emprega linguagem semelhante a respeito de Lázaro, reconhecendo a realidade da morte e ao mesmo tempo afirmando a sua autoridade como “a ressurreição e a vida”.

  • Jesus fala de modo literal: a criança morreu, mas, da sua perspectiva eterna, a morte não é mais definitiva do que o sono.
  • As Escrituras usam de forma constante o “sono” para descrever o estado passageiro do corpo que aguarda a ressurreição (Daniel 12:2; 1 Tessalonicenses 4:13-14).
  • Em João 11:11-14, Jesus emprega uma linguagem dupla a respeito de Lázaro, afirmando tanto a realidade da morte quanto a sua autoridade sobre ela.
  • Ao declarar a menina “adormecida”, Jesus promete um despertar iminente, destacando a sua autoridade como “a ressurreição e a vida”.

“E riram dele”

A reação de zombaria revela uma descrença endurecida. Lucas observa que riram “sabendo que ela estava morta”. Esse escárnio ecoa o Salmo 22, que retrata os zombadores duvidando do livramento de Deus, e antecipa o deboche junto à cruz. Ainda assim, o desprezo deles não impede o poder de Cristo, que segue adiante e a ressuscita, demonstrando que a fidelidade divina supera a incredulidade humana.

  • A risada de escárnio da multidão expõe uma descrença endurecida. Lucas relata que riram “sabendo que ela estava morta”.
  • Esse desprezo cumpre padrões já presentes no Salmo 22:7-8, onde os zombadores duvidam do livramento de Deus, e antecipa o deboche junto à cruz.
  • Ainda assim, a incredulidade não detém a Cristo. Ele toma a mão da menina, e ela se levanta, provando que a fidelidade divina supera o ceticismo.

Síntese
Mateus 9:24 mostra Jesus afastando a descrença, redefinindo a morte como sono diante do seu poder soberano e suportando o escárnio sem vacilar. A cena chama à confiança de que, quando Cristo fala, a própria morte precisa ceder, e cada zombador acaba testemunhando a sua fidelidade.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

  • A figura central, que demonstra autoridade sobre a vida e a morte por meio da palavra e da ação milagrosa.

A menina

  • A filha do líder da sinagoga, dada como morta pelos que a cercavam, mas destinada à ressurreição.

Os enlutados

  • Pessoas presentes na casa, provavelmente carpideiros profissionais contratados conforme o costume judaico, que reagiram com zombaria à declaração de Jesus.

A casa

  • O lugar onde a menina jazia e os enlutados se reuniam, cenário deste milagre de ressurreição.

O líder da sinagoga (Jairo)

  • Embora não seja nomeado em Mateus, os outros Evangelhos o identificam como Jairo — um homem de fé que buscou a intervenção de Jesus em favor da filha.

5. Pontos de Ensino

A fé acima do medo
A declaração de Jesus desafia o crente a confiar no seu poder sobre a vida e a morte, mesmo quando as circunstâncias parecem irreversíveis e sem saída.

Uma nova perspectiva sobre a morte
Jesus redefine a morte como um sono, oferecendo uma visão de esperança fundamentada nas promessas de ressurreição para os que estão em Cristo.

Como responder ao ceticismo
A risada dos enlutados revela o ceticismo do mundo diante do poder divino e estimula o crente a manter a fé firme apesar da oposição.

A autoridade de Jesus
Esta passagem ressalta a autoridade divina de Jesus, convidando à confiança nele em todas as circunstâncias e provações da vida.

Esperança em Cristo
A certeza de que Jesus pode trazer vida da morte oferece consolo e esperança nos tempos de perda e luto.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo levanta uma das questões mais antigas do pensamento humano: o que é, afinal, a morte? Para a multidão, ela é o fim absoluto, um fato bruto que encerra toda possibilidade. Para Jesus, ela é uma condição passageira, comparável ao sono. Essas duas visões não diferem apenas em otimismo, mas em fundamento.

Quem define a morte como ponto final coloca o limite da realidade naquilo que os sentidos conseguem verificar. Quem a define como sono admite uma instância acima do visível, capaz de reverter o que parece irreversível. O riso da multidão nasce justamente do choque entre essas duas perspectivas: o que para Jesus é afirmação séria soa, para quem só confia nos sentidos, como absurdo.

Há aqui uma lição sobre os limites do conhecimento humano. Saber que a menina estava morta era um fato correto, mas incompleto. A multidão acertava sobre o presente e errava sobre o que era possível. A verdadeira sabedoria reconhece que existe uma realidade maior do que aquela que se consegue medir.

7. Aplicações Práticas

Reavaliar o que parece definitivo
Diante de situações que parecem sem volta — uma perda, um fracasso, um relacionamento rompido — vale lembrar que o juízo humano sobre o que é “impossível” nem sempre corresponde ao que Deus pode fazer.

Buscar um ambiente de fé
Assim como Jesus afastou o tumulto antes do milagre, há momentos em que é preciso se afastar do barulho do desânimo e das vozes que só repetem que nada vai mudar.

Não se abalar com a zombaria
Quem confia em Deus muitas vezes será ridicularizado por quem só acredita no visível. O exemplo de Jesus mostra que a zombaria alheia não deve interromper a obediência nem a esperança.

Consolar com a esperança da ressurreição
Diante do luto, a fé cristã não nega a dor da morte, mas a coloca sob a promessa de que ela não é a palavra final para os que estão em Cristo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Qual é o significado de Mateus 9:24?
O versículo mostra Jesus afastando os que choravam, declarando que a menina apenas dormia e suportando o escárnio. Ele revela a autoridade de Cristo sobre a morte e a sua serenidade diante da descrença.

Como Mateus 9:24 demonstra a autoridade de Jesus sobre a vida e a morte?
Ao chamar de “sono” aquilo que todos viam como morte definitiva, Jesus fala como quem tem poder para reverter a situação. Ele não nega o fato da morte, mas a coloca sob o seu domínio, anunciando o despertar que está prestes a realizar.

O que podemos aprender sobre a fé com a reação da multidão em Mateus 9:24?
A multidão representa a descrença que só confia no visível e zomba do que vai além dele. A fé verdadeira, ao contrário, confia na palavra de Cristo mesmo quando ela contraria a aparência das coisas.

Como Mateus 9:24 se conecta com outros milagres de Jesus nos Evangelhos?
A cena ecoa a ressurreição de Lázaro, em João 11, e o relato paralelo de Marcos 5, onde Jesus também fala da morte como sono. Em todos esses casos, a sua palavra precede e produz a vida.

Como aplicar a perspectiva de Jesus sobre a morte no dia a dia?
Encarar a morte à luz da promessa da ressurreição muda a forma de viver o luto e de enfrentar o medo. A esperança em Cristo não elimina a tristeza, mas impede que ela tenha a última palavra.

O que Mateus 9:24 ensina sobre confiar em Jesus em situações sem esperança?
Ensina que o limite humano não é o limite de Deus. Mesmo quando tudo indica que não há mais nada a fazer, a presença e a palavra de Cristo abrem uma possibilidade que ninguém esperava.

Por que Jesus disse “a menina não está morta, mas dormindo” em Mateus 9:24?
Porque, da sua perspectiva, a morte daquela criança era tão reversível quanto despertar alguém do sono. A frase não negava o fato, mas anunciava a sua autoridade para devolver a vida.

Como Mateus 9:24 desafia a nossa compreensão da vida e da morte?
O versículo questiona a ideia de que a morte é o fim absoluto. Ele propõe que, diante do poder de Deus, ela é uma fronteira que pode ser atravessada.

Que crenças culturais sobre a morte Jesus pode ter confrontado em Mateus 9:24?
Ele confrontou a certeza, expressa pelos ritos de luto, de que a morte era irreversível e definitiva. A sua atitude rompeu com o que a cultura tratava como ponto final inquestionável.

Quais são as principais lições de Mateus 9?
O capítulo reúne curas, perdão de pecados, o chamado de Mateus e a ressurreição da menina, mostrando a autoridade de Jesus sobre a doença, o pecado e a morte, sempre movido pela compaixão.

9. Conexão com Outros Textos

“Retirai-vos”, disse ele

Atos 9:40
Mas Pedro, pondo para fora a todas; pôs-se de joelhos, e orou; e virando-se para o corpo, disse: Tabita, levanta-te; e ela abriu seus olhos, e vendo a Pedro, sentou-se.
Pedro segue o mesmo padrão de Jesus: afasta a todos antes de orar pela ressurreição de Tabita.

Lucas 8:51
E quando entrou na casa, a ninguém deixou entrar, a não ser a Pedro, Tiago, João, e ao pai e à mãe da menina.
O relato paralelo confirma que Jesus restringiu deliberadamente quem permaneceria na cena do milagre.

“A menina não está morta, mas sim dormindo”

Marcos 5:39
E ao entrar, disse-lhes: Por que fazeis alvoroço e chorais? A menina não morreu, mas está dormindo.
O paralelo em Marcos traz a mesma declaração, reforçando a imagem da morte como sono diante do poder de Cristo.

João 11:11
Ele falou estas coisas; e depois disto, disse-lhes: Lázaro, nosso amigo, dorme; mas vou para despertá-lo do sono.
Com Lázaro, Jesus usa de novo a linguagem do sono para anunciar a ressurreição.

João 11:14
Então pois lhes disse Jesus claramente: Lázaro está morto.
Em seguida ele esclarece o sentido literal, mostrando que a “linguagem do sono” não nega a realidade da morte.

Lucas 8:52
E todos choravam e lamentavam por ela; mas ele disse: “Não choreis; ela não está morta, mas dorme”.
Lucas registra a mesma cena de luto interrompida pela palavra de esperança de Jesus.

1 Tessalonicenses 4:13-14
Mas irmãos, não queremos que desconheçais acerca dos que morreram, para que não vos entristeçais como os outros que não têm esperança. Pois, se cremos que Jesus morreu e ressuscitou, assim também aos que morreram em Jesus, Deus os trará de volta com ele.
Paulo desenvolve a esperança cristã: a morte do crente é um sono do qual Deus o despertará.

Daniel 12:2
E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e o desprezo eterno.
O profeta já anunciava a ressurreição usando a mesma imagem do sono na terra.

“E riram dele”

Marcos 5:40
E riram dele. Porém ele, depois de pôr todos fora, tomou consigo o pai e a mãe da menina, e os que estavam com ele. Em seguida, entrou onde a menina estava.
O paralelo mostra a zombaria seguida da ação decidida de Jesus, que prossegue apesar do escárnio.

Lucas 8:53
E riam dele, porque sabiam que estava morta.
Lucas deixa claro que o riso nascia da certeza de que a menina estava morta — o que torna o milagre ainda mais impressionante.

Salmos 22:6-7
Mas eu sou um verme, e não um homem; sou humilhado pelos homens, e desprezado pelo povo. Todos os que me veem zombam de mim; abrem os lábios e sacodem a cabeça.
O salmo messiânico antecipa o desprezo e a zombaria que cercariam o Cristo.

Isaías 49:7
Assim diz o SENHOR, o Redentor de Israel, seu Santo, à alma desprezada, ao que a nação abomina, ao servo dos que dominam: Reis o verão e se levantarão, príncipes também; e eles se prostrarão por causa do SENHOR, que é fiel.
A profecia une desprezo e exaltação: o servo rejeitado pelos homens é honrado por Deus.

10. Original Grego e Análise

E disse: Retirai-vos, porque a menina não está morta, mas sim dormindo. E riram dele.

No grego: ἔλεγεν· Ἀναχωρεῖτε· οὐ γὰρ ἀπέθανεν τὸ κοράσιον ἀλλὰ καθεύδει. καὶ κατεγέλων αὐτοῦ. (élegen: Anachōreîte; ou gàr apéthanen tò korásion allà katheúdei. kaì kateguélōn autoû.)

Ἀναχωρεῖτε (anachōreîte)
“Retirai-vos”, “afastai-vos”. O verbo indica um movimento de retirada para dar lugar a outra coisa. Jesus não pede silêncio, mas a saída física dos que enchiam o ambiente de descrença.

ἀπέθανεν (apéthanen)
“Morreu”. É o verbo comum para a morte, no passado. Jesus não usa um termo ameno; ele reconhece o fato e, em seguida, o reinterpreta sob a sua autoridade.

κοράσιον (korásion)
“Menina”, “garotinha”. É um diminutivo afetuoso, que transmite ternura e reforça a delicadeza da cena.

καθεύδει (katheúdei)
“Dorme”, no tempo presente. Em contraste com o passado de “morreu”, o presente do verbo “dormir” aponta para um estado atual e passageiro, do qual se pode despertar.

κατεγέλων (kateguélōn)
“Riam dele”, “zombavam”. O prefixo intensifica o sentido: era um riso de desprezo, não de simples descrença. O tempo verbal indica uma ação contínua, um escárnio insistente.

11. Conclusão

Mateus 9:24 reúne, em poucas palavras, o choque entre a descrença humana e a autoridade de Cristo. De um lado, o luto barulhento e o riso de quem só enxerga o fim. De outro, a serenidade de Jesus, que trata a morte como um sono do qual ele tem poder para despertar.

A cena ensina que a palavra de Cristo não se curva à zombaria nem ao que parece impossível. Onde os homens veem ponto final, ele anuncia um novo começo. E convida cada pessoa a confiar que, diante do seu poder, nem mesmo a morte tem a última palavra.

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