Os que cuidavam dos porcos fugiram, foram à cidade e contaram tudo, inclusive o que acontecera aos endemoninhados.
1. Introdução
O versículo 33 de Mateus 8 registra um detalhe que poderia parecer secundário, mas que carrega um peso narrativo e teológico considerável. Os guardadores de porcos — testemunhas oculares de tudo o que acabara de acontecer — fogem e correm para a cidade contar o que viram. A notícia se espalha: o milagre, os homens libertados, a destruição da manada.
É um versículo de transição, mas não um versículo vazio. Ele conecta o milagre à comunidade, o evento sobrenatural à reação humana. E nessa conexão reside uma das observações mais agudas de Mateus sobre a natureza da testemunha: ver não é o mesmo que crer, e contar não é o mesmo que transformar.
Os guardadores viram tudo. Estavam presentes no momento em que uma palavra de Jesus despachou forças demoníacas e destruiu uma manada inteira. Testemunharam o que nenhuma escola, nenhum filósofo e nenhum exorcista da época poderia reproduzir. E fugiram. A fuga em si já é uma resposta — não de fé, mas de medo diante do que não conseguem categorizar.
Quando chegam à cidade e contam o que aconteceu, o relato inclui "tudo" — o evento com os porcos e o que acontecera com os endemoninhados. A sequência importa: a manada morta é mencionada primeiro, e os homens libertados aparecem como parte do conjunto. Isso antecipa a reação da cidade no versículo seguinte, onde a perda econômica pesa mais do que a restauração humana. Mateus está construindo, com precisão narrativa, o retrato de uma comunidade que vê e não reconhece.
2. Contexto Histórico e Cultural
Os guardadores de porcos na região gentílica A presença de guardadores de porcos na região dos gadarenos é um dado culturalmente significativo. A lei judaica proibia explicitamente o consumo e o manuseio de suínos (Levítico 11:7-8), de modo que a criação comercial de porcos em larga escala indicava uma população predominantemente gentílica — ou, na melhor das hipóteses, judeus que haviam abandonado a observância da lei. A região pertencia à Decápolis, confederação de dez cidades marcadas pela influência helenística, com costumes, religião e economia distintos dos padrões judaicos. Nesse contexto, a criação de porcos não era apenas tolerada — era uma atividade econômica respeitável e lucrativa.
A função social dos guardadores Os guardadores de porcos não eram proprietários da manada — eram trabalhadores assalariados responsáveis pelo cuidado e pela proteção dos animais. Sua presença indica que a operação era suficientemente grande para exigir mão de obra contratada. Ao fugirem após o evento, eles abandonaram tanto os animais quanto sua responsabilidade profissional, o que revela a dimensão do impacto daquilo que testemunharam. O medo superou qualquer cálculo de consequências profissionais.
A cidade como centro de vida social e econômica A cidade para a qual os guardadores fugiram era provavelmente uma das localidades da Decápolis próximas ao Mar da Galileia. Nessas cidades de influência greco-romana, a vida pública girava em torno do fórum, do comércio e da administração local. Uma notícia de impacto econômico — como a destruição de uma manada inteira — chegaria rapidamente às camadas da população mais diretamente afetadas: comerciantes, proprietários e autoridades locais. O relato dos guardadores não era apenas uma narrativa espiritual — era também um comunicado de perda econômica.
A prática do testemunho ocular no mundo antigo No primeiro século, sem meios de comunicação escritos de massa, o relato oral de testemunhas oculares era a principal forma de disseminação de informações. O testemunho dos guardadores tinha, portanto, um peso social considerável: eles estavam presentes, viram tudo e relataram com detalhes. Esse tipo de relato era levado a sério pelas comunidades antigas, mesmo quando o conteúdo era extraordinário. A questão que Mateus levanta não é se o relato foi acreditado, mas como foi recebido — e a resposta da cidade no versículo seguinte é reveladora.
Tensões culturais entre judeus e gentios O episódio inteiro — desde a travessia de Jesus para o território gentílico até a destruição da manada de porcos — está permeado pelas tensões culturais e religiosas entre o mundo judaico e o helenístico. Para um leitor judeu do primeiro século, a cena teria múltiplas camadas de significado: um mestre judeu, em território impuro, libertando dois homens de forças demoníacas, com a destruição de animais ritualmente impuros como resultado visível. Para os moradores gentílicos, o evento era antes de tudo uma catástrofe econômica com causas inexplicáveis. Essa diferença de perspectiva é central para entender a reação da comunidade no versículo que se segue.
3. Análise Teológica do Versículo
"Os que cuidavam dos porcos" Na região dos gadarenos, a criação de porcos era comum, apesar de a lei judaica proibir o consumo de carne suína (Levítico 11:7-8). Isso indica uma população predominantemente gentílica, ou judeus que não seguiam rigorosamente a lei. A presença dos porcos evidencia as tensões culturais e religiosas entre as práticas judaicas e gentílicas daquela região.
"Fugiram e foram à cidade" A reação imediata dos guardadores — fugir — indica medo e assombro diante do evento miraculoso que testemunharam. Essa urgência sublinha o caráter dramático do poder de Jesus sobre o mundo espiritual. A cidade à qual se referem era provavelmente uma localidade próxima da Decápolis, região conhecida por sua influência helenística e por sua população mista.
"E contaram tudo" O relato dos guardadores abrangeu tanto a libertação miraculosa dos endemoninhados quanto a perda subsequente dos porcos. Esse ato de contar servia como testemunho da autoridade e do poder de Jesus, espalhando sua fama e provocando reações variadas entre os habitantes da cidade.
"Inclusive o que acontecera aos endemoninhados" A ênfase nos endemoninhados destaca o poder transformador do ministério de Jesus. Esses homens, antes atormentados e isolados da sociedade, haviam sido restaurados ao pleno domínio de si mesmos. Esse relato é paralelo a outros episódios em que Jesus demonstra autoridade sobre os demônios — como em Marcos 1:23-27 e Lucas 8:2 — cumprindo as profecias sobre o poder do Messias de libertar os cativos (Isaías 61:1).
4. Pessoas, Lugares e Eventos
1. Jesus A figura central do Evangelho de Mateus, que realiza milagres e ensina sobre o Reino de Deus, demonstrando sua autoridade sobre as forças espirituais.
2. Os endemoninhados Os dois homens possuídos por demônios que viviam na região dos gadarenos e foram curados por Jesus, sendo restaurados à vida normal.
3. Os guardadores dos porcos Os trabalhadores responsáveis pela manada de suínos que foi destruída após a entrada dos demônios. Eles testemunharam o evento e levaram a notícia à cidade.
4. A cidade A localidade próxima à região dos gadarenos para onde os guardadores fugiram a fim de relatar o acontecido, provavelmente situada na Decápolis.
5. O evento A cura miraculosa dos endemoninhados e a subsequente destruição da manada de porcos, demonstrando a autoridade de Jesus sobre os espíritos malignos.
5. Pontos de Ensino
A autoridade de Jesus Jesus demonstra sua autoridade divina sobre o reino espiritual, confirmando sua identidade como Filho de Deus. O milagre narrado é mais uma evidência dessa autoridade soberana.
A resposta humana diante dos milagres A reação dos guardadores e dos moradores da cidade revela as diferentes respostas humanas diante da intervenção divina, que podem variar do medo à rejeição, sem necessariamente passar pela fé.
O valor da vida humana Jesus prioriza a restauração dos endemoninhados em detrimento da perda econômica representada pelos porcos, evidenciando o valor supremo que Deus atribui à vida humana.
O testemunho e o ato de contar O relato dos guardadores serve como testemunho do poder de Jesus, lembrando aos crentes a importância de compartilhar as obras de Deus em suas próprias vidas e comunidades.
A guerra espiritual Esta passagem reafirma a realidade da guerra espiritual e a necessidade de os crentes confiarem na autoridade de Jesus ao enfrentar o mal.
6. Aspectos Filosóficos
O problema do testemunho sem transformação Os guardadores de porcos são personagens que colocam em evidência uma tensão filosófica fundamental: a diferença entre ver e compreender, entre testemunhar e ser transformado. Eles viram tudo — a expulsão dos demônios, a destruição da manada, a restauração dos dois homens. Nenhuma outra pessoa na cidade teve acesso àquele nível de evidência direta. E ainda assim, fugiram. O relato que levaram à cidade era factualmente completo, mas existencialmente vazio: não havia neles nenhum processo de interpretação, de sentido ou de resposta pessoal ao que tinham visto. Isso revela que a exposição à verdade não é, por si mesma, suficiente para produzir mudança. A experiência precisa ser recebida, interpretada e integrada — e isso depende de uma disposição interior que o medo frequentemente bloqueia.
O medo como resposta ao sagrado A fuga dos guardadores não é simplesmente covardia — é uma reação que a filosofia e a teologia reconhecem como característica do encontro com o numinoso, ou seja, com aquilo que é radicalmente maior e diferente do humano. O pensador Rudolf Otto descreveu essa experiência como mysterium tremendum et fascinans — o mistério que ao mesmo tempo aterra e fascina. Os guardadores experimentaram o lado do terror sem avançar para o fascínio. Fugiram antes de perguntar. Essa postura é possível diante de qualquer realidade que supere nossa capacidade de controle: o instinto de fuga prevalece sobre o impulso de aproximação.
A narrativa como poder social Quando os guardadores chegam à cidade e contam "tudo", eles exercem um poder significativo: o poder de enquadrar o relato. O que eles escolhem enfatizar, a ordem em que apresentam os fatos, o tom com que descrevem o episódio — tudo isso molda a percepção da comunidade antes que qualquer habitante tenha visto Jesus ou os homens libertados. A narrativa precede a experiência direta, e isso determina em grande parte a resposta coletiva que veremos no versículo seguinte. Isso levanta uma questão filosófica pertinente: em que medida nossas respostas à realidade são moldadas não pela realidade em si, mas pela narrativa que outros constroem sobre ela?
O relato incompleto de uma realidade completa Os guardadores contaram "tudo" — mas o "tudo" deles era inevitavelmente parcial. Eles relataram os fatos externos: a saída dos demônios, a destruição da manada, a condição anterior dos homens. O que não estava em seu relato era o interior da experiência: o que os dois homens sentiram ao serem libertados, o que significava para eles voltar a ser quem eram, o que a palavra de Jesus havia feito naquele espaço entre a ordem e a obediência demoníaca. Todo testemunho é, por definição, limitado pelo ponto de vista de quem testemunha. E esse limite molda o que a comunidade vai saber — e o que vai decidir a partir disso.
7. Aplicações Práticas
Contar o que se viu sem personalizar o que se viveu Os guardadores relataram os fatos, mas não havia neles nenhuma transformação pessoal. Na vida cristã contemporânea, é possível repetir narrativas bíblicas ou relatos de outros com fluência e precisão, mas sem que isso tenha tocado o próprio coração. A aplicação prática é perguntar: o que eu conto da fé é aquilo que vi de longe ou aquilo que vivi de dentro? O testemunho mais poderoso não é o relato de um evento alheio — é a narração de uma experiência própria.
Não deixar que o medo determine o enquadramento da mensagem Os guardadores chegaram à cidade assustados, e o medo provavelmente coloriu o relato. Uma notícia contada com pânico produz reações de pânico. Para quem compartilha o Evangelho hoje, isso tem uma implicação direta: a forma como se conta uma história de fé impacta como ela será recebida. Relatos dominados por ansiedade, exagero ou alarmismo tendem a gerar fechamento, não abertura. A clareza e a calma no testemunho importam tanto quanto o conteúdo.
Reconhecer a responsabilidade de quem narra Os guardadores moldaram a percepção de toda uma cidade antes que seus habitantes vissem Jesus pessoalmente. Quem narra tem poder. Isso é verdade nas comunidades cristãs, nas famílias e nos ambientes de trabalho. A forma como se descreve Deus, a fé, a comunidade e os próprios milagres vividos influencia profundamente as pessoas ao redor. Usar esse poder com responsabilidade — com precisão, honestidade e cuidado — é uma dimensão do testemunho cristão que raramente recebe atenção suficiente.
Ir à cidade — não ficar parado no campo Apesar do medo, os guardadores foram. Eles não processaram o evento em silêncio nem ficaram paralisados à beira do mar. A aplicação simples disso é que o testemunho exige movimento. Experiências transformadoras — ou simplesmente surpreendentes — precisam ser levadas adiante. O crente que viveu algo real com Deus tem a responsabilidade de não guardar isso para si, mesmo que ainda esteja processando o que aconteceu.
Incluir as pessoas, não apenas os fatos O relato dos guardadores mencionou o que aconteceu com os porcos e o que acontecera com os endemoninhados. Mas a cidade respondeu mais à perda da manada do que à restauração dos homens. Isso sugere que, ao testemunhar, é fundamental enfatizar as pessoas — suas histórias, suas transformações, sua humanidade restaurada — e não apenas os fatos dramáticos ao redor delas. O que move o coração humano não é o espetáculo, mas a história de uma vida que foi mudada.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas sobre o Versículo
1. Como a autoridade de Jesus sobre os demônios em Mateus 8:33 encoraja você em suas batalhas espirituais pessoais?
Mateus 8:33 não descreve diretamente a ação de Jesus — descreve a reação de quem a testemunhou. E essa reação, mesmo sendo de fuga e medo, transporta a notícia da autoridade de Jesus para um lugar mais amplo. O encorajamento para as batalhas espirituais contemporâneas está precisamente nisso: a autoridade de Jesus não permanece confinada ao local onde foi exercida. Ela se espalha. Os guardadores fugiram, mas o que carregavam consigo era o relato de um poder que nenhuma força demoníaca conseguiu resistir. Para o crente que enfrenta conflitos espirituais, o ponto de apoio não é sua própria capacidade de resistência — é a certeza de que a autoridade que expulsou os demônios nos gadarenos é a mesma que está disponível em oração hoje.
2. O que é possível aprender com a reação dos habitantes da cidade ao milagre de Jesus, e como isso se aplica às respostas contemporâneas às obras de Deus?
A reação da cidade — pedir que Jesus fosse embora — será detalhada no versículo seguinte, mas ela começa a ser preparada aqui, pelo relato dos guardadores. O que esse processo ensina é que a recepção de uma obra de Deus depende não apenas da obra em si, mas do contexto em que ela chega, da narrativa que a precede e da disposição do coração de quem a recebe. Hoje, as obras de Deus frequentemente chegam às pessoas filtradas por interpretações de terceiros — mídias, opiniões, experiências negativas com a religião. Isso desafia os crentes a criar condições para que as pessoas encontrem Jesus diretamente, sem que intermediários mal preparados distorçam o que há para ser visto.
3. De que forma esta passagem desafia você a valorizar a vida humana e a priorizar o bem-estar espiritual em vez dos bens materiais?
O versículo menciona os endemoninhados quase como um apêndice do relato sobre os porcos. Isso revela onde estava o foco dos guardadores — e, por extensão, onde estava o foco da comunidade. A perda econômica era tangível, mensurável, imediata. A restauração dos dois homens era real, mas abstrata para quem não os conhecia pessoalmente. O desafio contemporâneo é análogo: é mais fácil mobilizar atenção e recursos em torno de perdas materiais mensuráveis do que em torno da restauração de pessoas que vivem à margem. A passagem convida a inverter essa lógica — a enxergar nas pessoas a prioridade que Jesus demonstrou ao cruzar o mar por dois homens que ninguém mais visitava.
4. Como você pode ser uma testemunha do poder de Jesus em sua comunidade, de forma semelhante ao relato dos guardadores à cidade?
Os guardadores foram testemunhas involuntárias — não escolheram estar ali, não escolheram o que viram e provavelmente não planejaram o impacto do relato que dariam. Ainda assim, sua narrativa alcançou uma cidade inteira. Isso sugere que o testemunho eficaz não exige preparação perfeita ou intenção elaborada — exige autenticidade. Contar o que realmente se viveu, sem exagero e sem minimização, é o que torna um relato crível. Na prática, isso significa que cada crente tem algo concreto a narrar: uma mudança observada, uma crise atravessada, uma paz que não tinha explicação racional. Essa é a matéria-prima do testemunho.
5. Reflita sobre um momento em que você experimentou ou testemunhou a guerra espiritual. Como esta passagem informa sua compreensão e resposta a essas situações?
A cena dos gadarenos é um dos retratos mais explícitos de conflito espiritual em todo o Evangelho — e o versículo 33 mostra que mesmo quem testemunhou esse conflito de perto pode sair dele sem compreensão e sem fé. Isso é um alerta: a exposição à realidade espiritual não garante sabedoria espiritual. O que informa a compreensão e a resposta diante de situações de conflito espiritual não é a intensidade da experiência, mas o referencial que se usa para interpretá-la. Para o crente, esse referencial é a Palavra e a autoridade de Cristo — a mesma que os demônios obedeceram e que os guardadores, sem essa âncora, não souberam reconhecer.
9. Conexão com Outros Textos
Marcos 5:1-20 e Lucas 8:26-39 Esses relatos paralelos oferecem detalhes adicionais sobre a cura dos endemoninhados, reforçando a autoridade de Jesus sobre as forças demoníacas.
"Como o homem que tinha sido possuído pelos demônios lhe pedisse que o deixasse ficar com Ele, Jesus não permitiu. Disse-lhe: 'Vai para casa, para os teus, e conta-lhes as grandes coisas que o Senhor fez por ti e como teve misericórdia de ti.' Então o homem foi e começou a proclamar na Decápolis as grandes coisas que Jesus havia feito por ele; e todos ficaram admirados." (Marcos 5:18-20)
Os relatos de Marcos e Lucas expandem o que Mateus resume: a libertação foi completa, o homem estava em pleno juízo, e Jesus o enviou como testemunha à sua própria comunidade — exatamente o território que os guardadores haviam alcançado com seu relato de medo.
Mateus 4:24 Mais cedo no Evangelho de Mateus, a fama de Jesus já havia se espalhado pela Síria por causa das curas e expulsões de demônios.
"A fama de Jesus se espalhou por toda a Síria, e lhe trouxeram todos os enfermos, que sofriam de vários tipos de doenças e dores, os endemoninhados, os epiléticos e os paralíticos, e Ele os curou." (Mateus 4:24)
O padrão estabelecido aqui se repete: o milagre acontece, a notícia se espalha e as pessoas respondem de formas diferentes. Mateus constrói ao longo do Evangelho um quadro consistente em que a fama de Jesus precede sua presença, mas não determina a resposta do coração.
Atos 19:13-16 O episódio dos filhos de Ceva ilustra a diferença entre a autoridade genuína de Jesus e as tentativas humanas de reproduzir seu poder sem relação real com ele.
"Alguns exorcistas judeus itinerantes tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre os que tinham espíritos malignos, dizendo: 'Conjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega.' Os sete filhos de Ceva, um sumo sacerdote judeu, faziam isso. Mas o espírito maligno lhes respondeu: 'Conheço Jesus e sei quem é Paulo; mas vocês, quem são?' E o homem em quem estava o espírito maligno saltou sobre eles, subjugou-os a todos e os maltratou de tal modo que fugiram daquela casa nus e feridos." (Atos 19:13-16)
O contraste com Mateus 8:32-33 é direto: quando Jesus fala, os demônios obedecem imediatamente. Quando outros tentam usar seu nome sem autoridade real, os demônios resistem e reagem com violência. Isso reforça que o que os guardadores testemunharam não era um ritual ou uma técnica — era o poder do próprio Filho de Deus.
10. Original Hebraico/Grego e Análise
Versículo em português: "Os que cuidavam dos porcos fugiram, foram à cidade e contaram tudo, inclusive o que acontecera aos endemoninhados." (Mateus 8:33)
Texto em grego: οἱ δὲ βόσκοντες ἔφυγον, καὶ ἀπελθόντες εἰς τὴν πόλιν ἀπήγγειλαν πάντα καὶ τὰ τῶν δαιμονιζομένων.
Transliteração: hoi de boskontes ephygon, kai apelthontes eis tēn polin apēngeilan panta kai ta tōn daimonizomenōn.
Análise palavra por palavra:
βόσκοντες (boskontes) Particípio presente ativo, do verbo boskō — "apascentar", "cuidar de animais", "alimentar um rebanho". O particípio presente indica que essa era a atividade contínua desses homens no momento do evento. Eles não eram passantes ou curiosos — estavam no exercício de sua função. Isso torna a fuga ainda mais significativa: eles abandonaram o que estavam fazendo no meio do expediente, sem olhar para trás.
ἔφυγον (ephygon) Verbo no aoristo indicativo ativo, terceira pessoa do plural, de pheugō — "fugir", "escapar", "correr para longe". O aoristo indica uma ação pontual e imediata: fugiram de uma vez, sem hesitação. Pheugō é o mesmo verbo usado em contextos de perseguição e perigo real — não é uma retirada ordenada, mas uma fuga instintiva. A palavra revela que o que os guardadores experimentaram não foi apenas surpresa ou admiração, mas medo genuíno.
ἀπελθόντες (apelthontes) Particípio aoristo ativo, de aperchomai — "ir para longe", "partir", "afastar-se". O particípio conecta a fuga à chegada à cidade: foram embora dali e chegaram à cidade. O uso conjunto de pheugō e aperchomai na mesma frase reforça o movimento de distanciamento — eles saíram do local do evento e não voltaram.
πόλιν (polin) Substantivo no acusativo — "cidade". O uso do artigo definido (tēn polin, "a cidade") indica uma localidade específica e conhecida pelos leitores originais, provavelmente a cidade principal da região dos gadarenos. A presença do artigo sugere que não havia ambiguidade sobre qual cidade era o destino.
ἀπήγγειλαν (apēngeilan) Verbo no aoristo indicativo ativo, terceira pessoa do plural, de apangellō — "anunciar", "relatar", "reportar oficialmente". Esse verbo tem uma conotação mais formal do que simplesmente "contar" (legō). Apangellō é usado no Novo Testamento para relatos feitos a autoridades, para anúncios públicos e para a proclamação de eventos significativos. Os guardadores não apenas conversaram sobre o que viram — fizeram um relato formal à comunidade. Isso confere ao episódio um caráter de notícia pública, com impacto coletivo.
πάντα (panta) Pronome/adjetivo no acusativo plural neutro — "tudo", "todas as coisas". A abrangência do termo é intencional: os guardadores não filtraram o relato, não omitiram partes. Contaram tudo o que viram — a expulsão dos demônios, a entrada nos porcos, a corrida ao mar, a morte da manada, a condição anterior e a condição atual dos dois homens. Esse "tudo" é o que torna o relato completo como informação, mas não necessariamente eficaz como testemunho transformador.
δαιμονιζομένων (daimonizomenōn) Particípio presente passivo no genitivo plural, de daimonizomai — "ser possuído por demônio", "estar sob influência demoníaca". O tempo presente do particípio é notável: mesmo após a libertação, os guardadores ainda se referem aos dois homens pela condição anterior — "os endemoninhados". Isso pode indicar que, para os guardadores, a identidade dos homens ainda estava associada ao estado do qual haviam sido tirados. É uma forma de narrar o passado pelo rótulo que ficou — algo que o próprio Evangelho, ao relatar a restauração, contraria.
11. Conclusão
Mateus 8:33 é um versículo que parece simples à primeira leitura, mas que revela, com precisão, a complexidade da resposta humana diante de uma obra divina. Os guardadores viram, fugiram e contaram. Três verbos que descrevem a trajetória de quem foi exposto a uma realidade extraordinária e a transferiu para outros sem que ela os houvesse transformado.
O que Mateus registra aqui é o mecanismo pelo qual uma comunidade inteira vai ser confrontada com Jesus — não por um encontro direto, mas por um relato mediado, carregado de medo, centrado na perda econômica e que descreve os dois homens libertados ainda pelo rótulo de sua antiga condição. É um testemunho factualmente completo e existencialmente limitado.
Isso não invalida o relato. A notícia chegou à cidade. As pessoas souberam. O versículo seguinte mostrará como responderam. Mas o que Mateus antecipa aqui é que o problema da recepção do Evangelho raramente está na ausência de informação — está na disposição do coração de quem recebe. Os guardadores tinham toda a informação necessária. Faltava-lhes a abertura para deixar que aquela informação os interpelasse pessoalmente.
Para o leitor de hoje, o versículo 33 é um espelho. A pergunta que ele coloca não é sobre os guardadores — é sobre nós: quando o poder de Jesus passa pelos nossos olhos, o que fazemos com o que vemos? Fugimos, contamos e seguimos em frente — ou paramos, interpretamos e somos transformados?









