Então, um mestre da lei aproximou-se e disse: "Mestre, eu te seguirei por onde quer que fores".
1. Introdução
A aproximação de um escriba a Jesus em Mateus 8:19 representa um momento significativo no ministério do Mestre. Os escribas eram figuras respeitadas na sociedade judaica, guardiões da lei mosaica e frequentemente céticos quanto aos ensinamentos de Jesus. A declaração deste escriba de seguir Jesus "por onde quer que fores" soa como uma expressão de total comprometimento e lealdade. No entanto, este versículo abre caminho para uma das lições mais profundas sobre o verdadeiro custo do discipulado. A resposta de Jesus nos versículos seguintes revelará que seguir o Mestre exige mais do que palavras entusiasmadas - exige uma transformação radical de prioridades, valores e estilo de vida. Este encontro desafia leitores de todas as épocas a examinar a sinceridade de seus próprios compromissos com Cristo.
2. Contexto Histórico e Cultural
O encontro acontece durante o ministério de Jesus na Galileia, uma região marcada por intensa atividade religiosa e social. Os escribas ocupavam posição privilegiada na estrutura religiosa judaica do primeiro século. Eram estudiosos profissionais da Torá, responsáveis por copiar, interpretar e ensinar a lei. A maioria deles era associada aos fariseus e mantinha forte resistência aos ensinamentos de Jesus, vendo-o como uma ameaça à tradição e à autoridade religiosa estabelecida.
A aproximação de um escriba a Jesus, portanto, era acontecimento incomum. Demonstrava que a influência de Jesus estava alcançando até mesmo os círculos religiosos mais tradicionais. Este escriba reconhece Jesus como "Mestre" (Rabi), um título que ele normalmente reservaria apenas para autoridades reconhecidas dentro do judaísmo oficial.
O conceito de "seguir" um rabi tinha significado específico naquela cultura. Os discípulos não apenas ouviam os ensinamentos de seu mestre - eles viviam com ele, observavam seu comportamento, imitavam suas práticas e dedicavam anos ao aprendizado. O relacionamento entre rabi e discípulo era total e transformador. Quando o escriba oferece seguir Jesus "por onde quer que fores", ele está, em teoria, propondo abandonar sua posição estabelecida para se tornar aprendiz itinerante.
A declaração também ocorre em contexto de crescente popularidade de Jesus. As multidões estão vindo até ele em busca de cura e ensino. Para um escriba, juntar-se a este movimento poderia parecer uma oportunidade de estar do lado vencedor, de associar-se a alguém cuja influência estava crescendo rapidamente.
3. Análise Teológica do Versículo
Os escribas eram especialistas na lei judaica e frequentemente associados aos fariseus. Eram respeitados por seu conhecimento e interpretação da Torá. A aproximação deste escriba a Jesus indica um reconhecimento de sua autoridade e ensino, o que era incomum dada a desconfiança geral dos líderes religiosos em relação a Jesus. Este encontro destaca o crescente interesse no ministério de Jesus entre vários grupos sociais.
O termo "Mestre" (Rabi) era um título de respeito, reconhecendo Jesus como uma autoridade respeitada em assuntos religiosos. Isto reflete o reconhecimento do escriba quanto à sabedoria e ao ensino de Jesus, apesar da tensão entre Jesus e muitos líderes religiosos da época.
O escriba expressa disposição para se tornar discípulo de Jesus. Seguir um rabi envolvia comprometer-se a aprender e imitar a vida e os ensinamentos do mestre. Esta declaração sugere um desejo de maior comprometimento e compreensão da mensagem de Jesus.
A frase "por onde quer que fores" indica uma prontidão para abraçar o caminho desconhecido e potencialmente difícil do discipulado. Ecoa o chamado para deixar para trás a segurança e o conforto pessoais, lembrando o chamado de Abraão para deixar sua terra natal (Gênesis 12:1). Também antecipa o custo do discipulado sobre o qual Jesus frequentemente falou, como em Mateus 16:24, onde ele chama seus seguidores a tomar sua cruz.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
A figura central do Evangelho de Mateus, realizando milagres e ensinando sobre o Reino de Deus.
Escriba
Um homem instruído na lei judaica, frequentemente associado aos fariseus, que se aproxima de Jesus com uma declaração de intenção de segui-lo.
O Cenário
Este evento ocorre durante o ministério de Jesus na Galileia, após uma série de curas e ensinamentos.
5. Pontos de Ensino
O Custo do Discipulado
Seguir Jesus exige disposição para sacrificar o conforto e a segurança pessoais. A declaração do escriba é ousada, mas Jesus frequentemente desafia tais declarações para garantir que sejam genuínas.
Compreendendo o Verdadeiro Compromisso
A palavra grega para "seguir" (akoloutheō) implica uma ação contínua e constante. O verdadeiro discipulado não é uma decisão única, mas uma jornada para toda a vida.
O Papel das Intenções
As boas intenções devem ser acompanhadas de ação. A declaração do escriba é louvável, mas Jesus frequentemente testa a sinceridade de tais afirmações.
A Importância de Calcular o Custo
Antes de fazer compromissos, é fundamental entender o que está envolvido. Jesus frequentemente enfatizou a necessidade de calcular o custo de segui-lo.
O Desafio dos Apegos Mundanos
A disposição do escriba em seguir "por onde quer que seja" sugere uma prontidão para deixar para trás os apegos mundanos, um tema ecoado em todo o Evangelho.
6. Aspectos Filosóficos
A declaração do escriba levanta questões filosóficas profundas sobre a natureza do comprometimento, a autenticidade das intenções e a relação entre conhecimento e ação. Em termos filosóficos, o escriba representa o conflito entre o conhecimento teórico e a prática vivencial.
O escriba possuía conhecimento extenso da lei, mas Jesus estava oferecendo algo além do conhecimento - estava chamando para uma transformação existencial completa. Filosoficamente, isto toca a distinção entre "saber sobre" e "conhecer por experiência". O escriba "sabia sobre" Deus através da lei, mas Jesus o convidava a "conhecer" Deus através de um relacionamento vivo e dinâmico.
A expressão "por onde quer que fores" também aborda a questão filosófica da liberdade e do comprometimento. O escriba oferece abrir mão de sua autonomia para seguir outro. Isto parece uma contradição: pode haver liberdade genuína no ato de seguir? A resposta cristã é que a verdadeira liberdade não está na autonomia absoluta, mas na escolha voluntária de alinhar-se com o propósito divino. A liberdade autêntica não é fazer o que se quer, mas querer fazer o que é verdadeiro e bom.
O encontro também levanta questões sobre a motivação humana. Por que o escriba queria seguir Jesus? Era admiração genuína pela verdade? Era desejo de status por associação? Era medo de ficar de fora de um movimento crescente? As motivações humanas são complexas e muitas vezes misturadas. Jesus, conhecedor do coração humano, frequentemente testava as motivações de quem se aproximava dele.
Por fim, o versículo toca a questão da identidade. O escriba era definido por sua posição social e conhecimento religioso. Seguir Jesus significaria redefinir completamente sua identidade. Filosoficamente, isto questiona: o que define quem somos? Nossa posição social, nossos conhecimentos, nossas posses, ou algo mais profundo? Jesus constantemente desafiava as pessoas a encontrar sua identidade verdadeira em seu relacionamento com Deus, não em marcadores externos de sucesso ou status.
7. Aplicações Práticas
Avalie suas motivações para seguir Jesus
Assim como o escriba, todos precisamos examinar por que queremos seguir Cristo. É pela segurança que a fé oferece? Pelo sentimento de comunidade? Pela tradição familiar? Embora estas razões não sejam necessariamente ruins, o discipulado autêntico nasce do reconhecimento de que Jesus é a verdade e de que segui-lo é a única resposta apropriada à realidade de quem ele é. Reserve tempo para reflexão honesta sobre suas motivações.
Conte o custo antes de fazer compromissos
A cultura contemporânea valoriza decisões rápidas e compromissos superficiais. Jesus oferece o oposto: ele convida para uma avaliação cuidadosa do que significa segui-lo antes de fazer promessas precipitadas. Antes de assumir novos compromissos na igreja, no ministério ou na vida espiritual, pergunte-se: estou preparado para as implicações práticas deste compromisso? Posso sustentá-lo a longo prazo?
Reconheça a diferença entre entusiasmo e comprometimento
O escriba mostrou entusiasmo, mas Jesus procurava comprometimento. O entusiasmo é emocional e passageiro; o comprometimento é volitivo e duradouro. Em sua caminhada de fé, cultive práticas espirituais que sustentam o comprometimento nos dias difíceis, quando o entusiasmo inicial já passou. Isto inclui disciplinas como leitura bíblica consistente, oração regular, comunhão com outros crentes e serviço aos necessitados.
Esteja disposto a abandonar sua zona de conforto
A frase "por onde quer que fores" desafia nossa tendência de querer controlar nossa vida e manter nossa segurança. Seguir Jesus pode significar mudanças de carreira, relocalizações geográficas, mudanças de relacionamentos ou ajustes financeiros. Pergunte-se: há áreas de minha vida que estou mantendo fora do alcance de Jesus? Estou disposto a ir onde ele me levar, mesmo que isto signifique deixar meu conforto?
Não confunda conhecimento religioso com relacionamento com Deus
O escriba tinha muito conhecimento sobre Deus, mas isto não garantia relacionamento genuíno com ele. Na era da informação, é fácil acumular conhecimento bíblico sem permitir que este conhecimento transforme nossa vida. Pergunte-se regularmente: meu conhecimento sobre Deus está me levando a conhecer Deus mais profundamente? Meu estudo bíblico resulta em mudança de caráter e comportamento?
8. Perguntas e Respostas Reflexivas sobre o Versículo
O que a aproximação do escriba a Jesus revela sobre sua compreensão do discipulado, e como isto se compara com nossa própria compreensão hoje?
A aproximação do escriba revela uma compreensão incompleta do discipulado. Ele parece vê-lo como uma escolha intelectual ou profissional - seguir outro mestre, aprender novos ensinamentos. Hoje, muitos cristãos têm compreensão semelhante, vendo o cristianismo como um sistema de crenças a ser aceito ou um conjunto de práticas religiosas a serem executadas. No entanto, Jesus sempre definiu o discipulado como transformação total da vida. Não se trata apenas de adicionar Jesus às nossas prioridades existentes, mas de reorganizar toda a vida ao redor dele. O escriba ainda não compreendeu que seguir Jesus significa morte para a antiga identidade e nascimento de uma nova. Nossa compreensão moderna frequentemente falha no mesmo ponto - queremos os benefícios do cristianismo sem o custo do discipulado.
Como a resposta de Jesus ao escriba (nos versículos seguintes) desafia nossos compromissos modernos de segui-lo?
Nos versículos seguintes (Mateus 8:20), Jesus responde: "As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça." Esta resposta confronta diretamente a busca moderna por segurança, conforto e estabilidade. Nossa cultura valoriza a prosperidade material, a segurança financeira e o controle sobre nosso futuro. Jesus desafia isto radicalmente. Ele não está dizendo que todos os cristãos devem viver em pobreza, mas está deixando claro que seguir a ele significa priorizar o Reino de Deus acima de nossa própria segurança e conforto. Para muitos cristãos modernos, isto é desafiador porque queremos seguir Jesus sem sacrificar nosso padrão de vida. A resposta de Jesus força uma escolha: você está disposto a seguir mesmo quando isto significa insegurança material? Sua fé sobrevive quando você não tem controle sobre seu futuro?
De que maneiras podemos garantir que nossas intenções de seguir Jesus sejam acompanhadas por nossas ações e estilo de vida?
A garantia vem através de práticas concretas e prestação de contas. Primeiro, é necessário traduzir compromissos gerais em ações específicas. Em vez de simplesmente dizer "quero seguir Jesus", defina o que isto significa em termos práticos: quanto tempo você dedicará à oração diária? Como você servirá aos necessitados semanalmente? Que mudanças específicas você fará em seus gastos para refletir prioridades do Reino? Segundo, busque prestação de contas. Compartilhe seus compromissos com outros cristãos maduros que podem perguntar regularmente como você está progredindo. Terceiro, examine seu calendário e seu orçamento - estes revelam suas verdadeiras prioridades. Se não há tempo para Deus em sua agenda ou recursos financeiros para seu Reino em seu orçamento, suas ações não correspondem às suas intenções. Finalmente, desenvolva o hábito de auto-reflexão regular, perguntando: minhas decisões desta semana refletiram meu compromisso declarado com Cristo?
Como os temas de sacrifício e compromisso em Mateus 8:19 se relacionam com o relato do jovem rico em Mateus 19:16-22?
Ambas as passagens tratam do custo do discipulado e da disposição de abandonar segurança mundana. O jovem rico pergunta o que deve fazer para ter a vida eterna, e Jesus o desafia a vender tudo e segui-lo. Ele vai embora triste porque tinha muitas posses. O escriba em Mateus 8:19 faz uma declaração confiante, mas Jesus igualmente o confronta com a realidade do que isto significa. Em ambos os casos, Jesus identifica o que a pessoa valoriza mais do que Deus - para o jovem rico, eram suas posses; para o escriba, provavelmente era sua segurança e status. O ponto comum é que Jesus não aceita discipulado parcial. Ele não quer ser apenas uma parte de nossa vida; ele quer ser o Senhor de toda ela. Ambas as histórias nos forçam a perguntar: o que eu preciso abandonar para seguir Jesus completamente? O que estou segurando que me impede de total entrega a ele?
Reflita sobre um momento em que você teve que calcular o custo de seguir Jesus. O que você aprendeu com essa experiência, e como isto impactou sua jornada de fé?
Esta pergunta exige reflexão pessoal, mas alguns princípios gerais emergem da experiência dos seguidores de Cristo através da história. Momentos de calcular o custo geralmente vêm quando seguir Jesus entra em conflito direto com outros desejos ou obrigações. Pode ser uma decisão de carreira onde o caminho mais lucrativo compromete valores cristãos. Pode ser um relacionamento romântico com alguém que não compartilha sua fé. Pode ser uma escolha entre conforto pessoal e chamado ao ministério. Nestes momentos, você aprende várias lições: primeiro, que Jesus realmente pede sacrifício real, não apenas teórico. Segundo, que o custo do discipulado, embora real, não se compara às recompensas de seguir Cristo. Terceiro, que a obediência muitas vezes precede a compreensão completa - você pode precisar obedecer antes de entender completamente por quê. Finalmente, estes momentos revelam o que você realmente acredita sobre Deus. Se você confia que ele é bom e que seus caminhos são melhores, você pode fazer escolhas difíceis com paz. Se você duvida disto, cada sacrifício parecerá uma perda insuportável.
9. Conexão com Outros Textos
Lucas 9:57-62
Enquanto caminhavam, alguém lhe disse: "Eu te seguirei por onde quer que fores". Jesus lhe respondeu: "As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça". E disse a outro: "Segue-me". Ele, porém, respondeu: "Senhor, permite que primeiro eu vá sepultar meu pai". Mas Jesus lhe disse: "Deixe que os mortos sepultem os seus próprios mortos. Você, porém, vá e proclame o Reino de Deus". Ainda outro disse: "Eu te seguirei, Senhor, mas deixe-me primeiro despedir-me dos que estão em minha casa". Jesus lhe respondeu: "Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus".
Esta passagem paralela em Lucas fornece contexto adicional sobre o custo do discipulado. Lucas acrescenta dois outros candidatos a discípulos, cada um com suas próprias desculpas para adiar o seguimento de Jesus. Estes exemplos múltiplos enfatizam que Jesus não está interessado em compromissos condicionais. O Reino de Deus exige prioridade absoluta, acima até mesmo de obrigações familiares consideradas sagradas na cultura judaica.
Mateus 19:16-22
Eis que alguém se aproximou de Jesus e lhe perguntou: "Mestre, que farei de bom para ter a vida eterna?" Respondeu-lhe Jesus: "Por que você me pergunta sobre o que é bom? Há somente um que é bom. Mas, se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos". "Quais?", perguntou ele. Jesus respondeu: "Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, honra teu pai e tua mãe, e amarás o teu próximo como a ti mesmo". Disse-lhe o jovem: "A tudo isso tenho obedecido. O que me falta ainda?" Jesus respondeu: "Se você quer ser perfeito, vá, venda os seus bens e dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois, venha e siga-me". Ouvindo isso, o jovem afastou-se triste, porque tinha muitas riquezas.
O relato do jovem rico explora o tema de seguir Jesus e os sacrifícios envolvidos. Assim como o escriba, o jovem rico se aproxima de Jesus com aparente sinceridade. Mas quando confrontado com o que realmente o impede de total comprometimento (suas riquezas), ele escolhe não seguir. Isto ilustra que conhecimento religioso e até obediência exterior aos mandamentos não garantem o discipulado verdadeiro. Jesus identifica e confronta o que realmente governa o coração de cada pessoa.
João 6:66-69
A partir daquele momento, muitos dos seus discípulos voltaram atrás e deixaram de segui-lo. Então Jesus perguntou aos Doze: "Vocês também querem ir embora?" Simão Pedro lhe respondeu: "Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna. Nós cremos e sabemos que és o Santo de Deus".
Esta passagem destaca o comprometimento dos verdadeiros discípulos, contrastando aqueles que se afastam quando os ensinamentos se tornam difíceis. Após Jesus ensinar sobre comer sua carne e beber seu sangue - ensinamento que muitos acharam inaceitável - uma grande multidão o abandona. Pedro, falando pelos Doze, demonstra o tipo de comprometimento que Jesus procura: não baseado em conveniência ou compreensão completa, mas na convicção de que Jesus possui as palavras da vida eterna e não há alternativa melhor. Este é o contraste com o escriba - Pedro já havia contado o custo e decidido que seguir Jesus vale qualquer sacrifício.
10. Original Grego e Análise
Texto em Português:
"Então, um mestre da lei aproximou-se e disse: 'Mestre, eu te seguirei por onde quer que fores'."
Texto Grego:
Καὶ προσελθὼν εἷς γραμματεὺς εἶπεν αὐτῷ· Διδάσκαλε, ἀκολουθήσω σοι ὅπου ἐὰν ἀπέρχῃ.
Transliteração:
Kai proselthōn heis grammateus eipen autō: Didaskale, akolouthēsō soi hopou ean aperchē.
Análise Palavra por Palavra:
Καὶ (Kai) - "E" ou "Então"
Esta conjunção conecta o versículo ao contexto anterior, mostrando continuidade narrativa. Indica que a aproximação do escriba acontece no fluxo dos eventos do ministério de Jesus.
προσελθὼν (proselthōn) - "aproximou-se", "veio até"
Particípio aoristo do verbo proserchomai, que significa aproximar-se ou vir até alguém. O uso do particípio indica uma ação deliberada e específica. O escriba não encontrou Jesus casualmente; ele intencionalmente se aproximou dele. Esta palavra sugere movimento proposital em direção a Jesus, demonstrando iniciativa do escriba.
εἷς (heis) - "um"
Artigo numeral indicando "um" escriba específico dentre muitos. O uso de "um" sugere individualidade - esta não era uma delegação oficial de escribas, mas uma pessoa agindo por iniciativa própria.
γραμματεὺς (grammateus) - "escriba", "mestre da lei"
Substantivo que designa os escribas, especialistas na lei mosaica. Eram copiadores, intérpretes e professores da Torá. Possuíam autoridade religiosa e social significativa. A menção específica desta identidade profissional é importante - não era uma pessoa qualquer se aproximando de Jesus, mas alguém da elite religiosa.
εἶπεν (eipen) - "disse"
Verbo no aoristo indicativo, tempo verbal que expressa uma ação pontual no passado. O escriba fez uma declaração específica em momento definido.
αὐτῷ (autō) - "a ele"
Pronome pessoal no caso dativo, indicando que a declaração foi dirigida diretamente a Jesus. Mostra a natureza pessoal e direta do diálogo.
Διδάσκαλε (Didaskale) - "Mestre", "Professor"
Forma vocativa de didaskalos, termo usado para rabis e professores religiosos. Este era um título de respeito e reconhecimento de autoridade para ensinar. O uso deste termo pelo escriba é significativo - ele está reconhecendo Jesus como uma autoridade no ensino religioso, algo que muitos de seus colegas escribas se recusavam a fazer.
ἀκολουθήσω (akolouthēsō) - "seguirei"
Verbo no futuro indicativo de akoloutheō, que significa seguir, acompanhar. No contexto do discipulado judaico, este verbo tinha significado técnico específico - significava tornar-se discípulo de um rabi, comprometer-se a aprender dele, imitá-lo e viver conforme seus ensinamentos. O tempo futuro indica intenção firme de ação futura.
σοι (soi) - "te", "a ti"
Pronome pessoal de segunda pessoa no caso dativo, indicando que o seguimento seria direcionado especificamente a Jesus. Pessoaliza o comprometimento.
ὅπου (hopou) - "onde", "por onde"
Advérbio relativo de lugar. Indica que o compromisso não era limitado geograficamente - o escriba estava declarando disposição de ir a qualquer lugar.
ἐὰν (ean) - "quer que", "se"
Partícula condicional que, junto com ὅπου, forma a expressão "onde quer que". Isto enfatiza a natureza ilimitada e incondicional da declaração do escriba.
ἀπέρχῃ (aperchē) - "fores", "vás"
Verbo no presente subjuntivo de aperchomai, que significa ir embora, partir, prosseguir. O modo subjuntivo após ean expressa eventualidade - "para onde quer que você vá". O tempo presente enfatiza ação contínua - não apenas uma viagem, mas o padrão constante de movimento de Jesus.
Análise Sintática e Teológica:
A construção grega revela nuances importantes. O uso do futuro indicativo (akolouthēsō) mostra que o escriba está fazendo uma declaração firme sobre suas intenções futuras, não apenas expressando um desejo vago. Ele está comprometendo-se a uma ação.
A frase ὅπου ἐὰν ἀπέρχῃ ("por onde quer que fores") é particularmente significativa. A combinação de hopou ean cria uma expressão de totalidade - literalmente "para todo e qualquer lugar que". O uso do subjuntivo enfatiza a incerteza dos destinos específicos, mas a certeza do comprometimento do escriba em seguir independentemente do destino.
O verbo akoloutheō é central para entender o discipulado no Novo Testamento. Aparece frequentemente nos Evangelhos em contextos de chamado ao discipulado. Não significa simplesmente andar atrás fisicamente, mas implica comprometimento de vida inteira, aprendizado contínuo e transformação de caráter através da imitação do mestre.
11. Conclusão
Mateus 8:19 apresenta um momento decisivo no entendimento do que significa seguir Jesus. A declaração do escriba, embora soe impressionante à primeira vista, revela a tendência humana universal de fazer compromissos baseados em compreensão incompleta. O escriba via Jesus como mais um mestre a ser seguido, mais uma autoridade religiosa com quem aprender. Ele ainda não compreendeu que Jesus não estava oferecendo uma nova filosofia ou interpretação da lei - estava oferecendo um reino totalmente novo que exigia lealdade absoluta.
A resposta de Jesus nos versículos seguintes (que não fazem parte do escopo deste estudo, mas que contextualizam este versículo) revela que seguir o Filho do Homem significa abraçar um estilo de vida de insegurança, sacrifício e dependência total de Deus. O escriba tinha conhecimento, posição e segurança. Jesus o chamava para abandonar tudo isto em troca de algo infinitamente maior - mas também infinitamente mais custoso em termos humanos.
Para os leitores contemporâneos, este versículo serve como espelho. Somos confrontados com nossas próprias declarações fáceis de comprometimento, nossas orações casuais de consagração, nossas promessas feitas em momentos emocionais de adoração. Assim como o escriba, frequentemente oferecemos seguir Jesus sem contar completamente o custo. Queremos os benefícios do cristianismo - paz, propósito, comunidade, esperança eterna - sem os sacrifícios do discipulado - morte do ego, rendição de controle, possível rejeição social, simplificação material.
O versículo também revela a graça de Jesus. Ele não aceita o escriba imediatamente, não por rejeição, mas por amor. Jesus sabia que um compromisso baseado em entusiasmo superficial e compreensão incompleta resultaria em decepção e desistência posterior. Ao confrontar o escriba com a realidade do que significa segui-lo, Jesus oferecia a oportunidade de fazer um compromisso informado e genuíno.
A mensagem central é clara: Jesus não busca seguidores casuais, mas discípulos comprometidos. Ele não quer pessoas que o adicionam às suas vidas já cheias; ele quer pessoas que reorganizam toda a vida ao redor dele. Ele não aceita o segundo lugar em nossas prioridades; ele exige - e merece - o primeiro lugar.
Esta passagem nos chama a um exame de consciência rigoroso. Você está seguindo Jesus com base em compreensão superficial ou convicção profunda? Seus compromissos com Cristo sobreviverão quando forem testados pelo custo real do discipulado? Você está disposto a seguir Jesus não apenas quando isto é conveniente, confortável ou socialmente aceitável, mas "por onde quer que ele for"?
O escriba nos ensina tanto pelo que disse quanto pelo que provavelmente não estava preparado para fazer. Sua declaração era sincera, mas sua compreensão era incompleta. Que possamos aprender com seu exemplo, contando honestamente o custo do discipulado e escolhendo seguir Jesus não por impulso emocional, mas por convicção arraigada de que ele é digno de total entrega de nossas vidas.









